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domingo, 30 de setembro de 2012

Reflexo



Não havia ninguém no seu olhar,
a porta estava aberta
eu apenas cheguei,
provei do seu mel.
A janela aberta que pede ao sol calor.
Uma rua infinda de Janelas abertas de onde você me olhou.
E o espelho sempre intensifica mais o que desejamos.
Havia alguém no seu olhar e ele estava na parte cinza.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Novidade


Tem vezes que o rumo das coisas deixa rastros coloridos.
Um sinal de experiência.
Alguns são vivos e têm sangue do amor.
Outros, a cor da pele, se chora.
Sigo?
Por serem tão belos, esqueço e os sigo.
É nessas horas que os rumos se misturam
e podem me doar uma tela branca.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

À hora do almoço

Um prato,
várias cores e
uma fome.

O pensamento se divide entre o sentimento e a vontade de comer.

Tanta gente,
uma fome e
várias cores.

Larguei a colher e
fitei a carne.

Várias fomes,
tanta gente e
uma morte.

O cheiro do feijão me tornou voraz.

Quanta fome,
uma cor e
muita gente.

No prato sobra um pequeno ramo de Brócolis.

Há cor,
há gente e
uma fome.

A barriga cheia pesa,amassa e mastiga o pensamento.

Vazio,
preto e
satisfação.

Louça suja largada na pia.


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Um objeto poético

Era noite e  eu chovi ontem,
amanheci melhor que um café recém feito,
porque eu dormi o sol daquela ultima fotografia!
É... acabei sorrindo dia!

terça-feira, 11 de setembro de 2012

JOVENS AMANTES


Vi um casal de namorados em frente a um ponto de ônibus, na esquina da minha casa. Eu esperava por um transporte, já havia longos chatos minutos, precisa ir logo para o trabalho. Os dois jovens,do outro lado da rua,  experimentavam a liberdade que só a paixão dá aos apaixonados. Bebiam coca-cola e um pão doce que parecia dormido. Um dedicava o pedaço a boca do outro como se oferecesse um tesouro: a mão dada aos lábios. Riam de si, cada um se preparando para mais beijos, que não paravam de acontecer. Eram como sortes que a vida nos guarda, e eles eram ali um a vida do outro. Em certo momento, ficavam sentados com as faces encostadas. Pareciam escutar algum silencio. Ficaram imóveis,ficaram inertes, tendiam a ficar como mármores.Isso pintava uma proteção dos ruídos daquela esquina com carros e ônibus que em vão cortavam a minha visão.Eram duas almas que iluminavam o mar perdido em que eu me encontrava. Sentiram rosto um do outro por minutos infinitos, que foram sendo quebrados pela golada de coca,pinçar de um pedaço de pão ou olhar da hora no celular.Do nada, o menino levantou e dançou, abriu os braços e fazia um gesto para a menina acompanhá-lo.Eu ri.Ri por que nunca fui bobo o bastante.Nem tão ridículo para esquecer os padrões do mundo e fazer do mundo minha platéia.Eu nunca fiz o mundo de bobo como aquele garoto me fazia ser.Subiu na cadeira e soltava altas gargalhadas e pulava na frente da menina, sempre com um gesto de cortesia.Ela gargalhava alto e o recebia sempre com beijos.
Meu ônibus demorava, mas nem tinha me dado conta do tempo em que eu fiquei esperando.Ela, loira e ele, moreno.Os dois tão jovens que pareciam ter 17 anos para sempre.Se amavam muito naquele momento. Era muito nítida a anarquia  do garoto.Possuía grande poder e não podia controlá-lo.Era ótimo não controlar.Muitas explosões aconteciam nas atitudes dele.Obra de arte contemplada pela namorada que se permitia ser conduzida por um balé de emoções cuja coreografia era ditada pelo fluxo do desejo.
Minha mão estava suada quando dei por mim.Fui o resultado de uma causa inexplicável do amor de um casal.Como tinha ficado sem graça pelo repentino suor...mas a graça estava nisso.Meu redespertar para o mundo que já não considerava mais digno do meu coração.Ambos me fizeram querer ter novamente um pouco dos beijos que eles sentiam.Um fração do desassossego gostoso da paixão.Um mero toque carinhoso que dispensa as noites tristes.
Conversavam algumas coisas, obviamente que eu não entendia, mas pra quê? O efeito era um sorriso ou beijo, um abraço ou afago. A linguagem dos anjos?! Não sei se eles se amariam assim. Não sei por que tinha pensado em divindades, mas aquilo mostrava que os homens sabiam amar. Tinham oportunidade de sentir na pele os arroubos que nos podíamos criar.  Aqueles jovens sabiam disso. Eu tinha certeza que podia ser mais, um único amor, e fazer das minhas palavras serenatas de algum sonho. Fazer planos rasos, feito a pétala de uma flor quando a paixão nos flama. Eles sabiam estar apaixonados, eram desenhados pelos momentos, que se jogavam fora para que nada pudesse ser copiado. E eu me agradecia por perceber aquilo. De olhar para os belos jovens a minha frente e sentir que ser eterno não é seguir o tempo e sim fazer de si seu próprio tempo. A perenidade podia ser tão longa como aqueles beijos que se perdiam àquela tarde.
Em um breve instante sem trafego na rua, consegui ouvir o barulho do canudo sinalizando o fim do liquido preto na garrafa. Ela fez um biquinho de que estava triste e de queria mais. Mas o menino mostrou a carteira que acredito estar vazia. Ela fez um sinal de que não importava e ofereceu a ele o ultimo pedaço de pão, recusado aos risos. Ela deu de ombros e comeu, meio que contra a vontade. Ele a olhava comendo com certo humor e espanto. Á medida em que ela mastigava, era enchida de muitos beijos, abraços e das frases “te amo sua ,corajosa”, “te amo, comilona”.Talvez tenha falado mais, porém  tinha parado um ônibus na minha frente.”Maldito transporte público que além de demorar, ainda atrapalha a curiosidade alheia”.Só tinha me dado conta que era meu ônibus, quando eu os vi de pé olhando para ele e fazendo sinal para parar, logo que ele tinha virado a esquina.
De pé o casal se entreolhou, pegaram as mochilas nas cadeiras vermelhas do bar e seguiram rua acima. Foram de mãos dadas, ora ele dava pulos, ora imitava o Charles Chaplin. Pra mim, ela simplesmente concordava com as meninices dele mantendo-se ao lado. Até parava para ver o teatrinho e depois o abraçava. Eu percebia que além do sinal de aprovação, via que o amor se permitia tornar tudo de maneira mais natural que nem as convenções mais concisas poderiam rechaçar. Tentei acompanhar os dois, mas não tive sucesso por causa da minha leve miopia. Esbocei uma alegria tão nova que a sua novidade me incomodava. Eu sabia no fundo que isso não era fútil, que era profundo demais para uma pessoa que até então estava distante dos inúmeros acontecimentos do cotidiano, que aos poucos a contemporaneidade faz camuflar. Duas pessoas se amando era muito normal pra mim, eu via isso em qualquer lugar. Eu tinha amado várias vezes, pois é! Eu tinha achado que tinha amado. Depois desses jovens, descobri que nunca me vi amando, eu repetia a noção de casal. Estava formalizado em mim que eu deveria ter um sentimento sem romper com as estruturas planejadas do meu ser. Aqueles meninos poderiam ter sido mais arrojados em outros momentos e eu nunca olhar para os seus atos. Mas foi ali, na hora escolhida pela minha alma, que eu reconheci as maravilhosas dimensões que o presente oferece. Isso poderia ser com qualquer coisa, fosse casal, fosse pedra. Eu sabia que naquele momento poderia amar mais, aquilo tinha virado um dos segredos da vida e infelizmente eu nem sabia como traduzir aquilo para os outros. E quem sabe esses outros também nem teriam a loucura necessária para entender os sinais. De qualquer maneira, me sentia mais novo para os detalhes que o planeta Terra tem. A partir daquele momento eu teria duas missões que gritavam na minha cabeça: prestar atenção no próximo ônibus e garantir, pelo menos uma vez, que me perceba o amor tão livre dentro de mim.